Depois de conhecermos um período de guerra fria entre 1945 e 1990 baseado no espectro da destruição nuclear do planeta, nós entramos desde então num período de guerra quente caracterizado pela ameaça da destruição do planeta pelo automóvel.

Esta guerra quente caracteriza-se pelo desenvolvimento massivo do uso do automóvel à escala planetária, pelo imparável aquecimento climático mundial, pela intensa corrida ao domínio das matérias-primas ( como o petróleo), pela pilhagem e esgotamento dos recursos petrolíferos e pelas guerras de conquista e de controle sobre as reservas petrolíferas.

A massificação planetária do automóvel

auto

O modelo ocidental do automóvel individual generalizou-se à escala mundial desde os anos 90. Enquanto a taxa de motorização ( nº de viaturas por 1000 habitantes) continua a progredir nos países ocidentais desde 1990, ela explode nos países em vias de desenvolvimento, em particular, na China e na Índia. A taxa de motorização na China multiplicou-se por três entre 1990 e 2003, e o mesmo aconteceu na índia entre os anos de 1985 e 2002. É certo que essas taxas de motorização ainda são relativamente fracas comparadas com as dos países ocidentais ( 15 viaturas/ 1000 habitantes na China, enquanto em França a taxa é de 600/1000, e nos Estados Unidos atinge 800/1000), mas elas estão em franca progressão e tal acontece em países fortemente povoados.

A triplicação da taxa de motorização chinesa entre 1990 e 2003 fez aumentar o parque automóvel de viaturas particulares de cerca de 15 milhões de unidades . Uma nova triplicação dessa taxa no período entre 2005 e 2020 provocará um novo aumento do parque mundial de mais 50 mil carros…

Um estudo feito sobre os países do leste mostra que entre 1990 e 1998 o número total de viaturas em 10 desses países passou de 14,7 a 23,1 milhões, ou seja, um aumento de 57%. A taxa de motorização média desses países era três vezes menos à da França. Imagine-se agora quais serão as taxas de progressão desses países num mais que previsível contexto de integração acelerada no modelo de desenvolvimento oeste europeu.

Com um parque automóvel mundial de cerca de 500 milhões de viaturas em 1999, as estimativas mais razoáveis apontam para uma duplicação desses números em 2020, isto é, para cerca de mil milhões de automóveis sobre o planeta.

Segundo Jean-Marie Revaz,, presidente do Salão Automóvel de Genebra, «cerca de 600 milhões de viaturas individuais circulam cada dia na superfície terrestre e 42 milhões de novos carros são produzidos cada ano»

Se, por hipótese, o conjunto da humanidade fosse equipada como os franceses, então teríamos cerca de 3 mil milhões de automóveis a circular no planeta, o que certamente significaria uma rápida destruição do planeta pela poluição causada, por força do esgotamento das matérias primas, do espaço e até por razões de segurança.

O aquecimento climático acelerado

Segundo um grupo de especialistas reunidos sob a égide da ONU, a temperatura média mundial aumentou de 0,6 graus no século XX.

Desde o fim do século XIX observa-se igualmente uma subida do nível dos oceanos de 10 a 20 cm. A década de 990 foi a mais quente de todas nos últimos 150 anos no hemisfério norte e o ano de 1998 foi o ano mais quente de todos desde que há registos ( 1861), seguido de psero pelos anos de 2002,2003 e 2004.

Os factores naturais ( raios solares, vulcões) não podem por si sós explicar o aquecimento do planeta. No seu terceiro relatório científico (2001), o Grupo de especialistas intergovernamental sobre a evolução do clima (GIEC) confirma a influência do homem sobre o clima. A maior parte do aquecimento, observado nos últimos cinquenta anos, provêm do aumento das emissões de gás produzido pelas actividades humanas, à frente das quais se encontram os transportes.

Na ausência de uma redução das emissões antrópicas do gás com efeito na atmosfera, o GIEC estima que a temperatura mundial média arrisca-se a aumentar de 1,4 a 5,8 ºC entre 1990 e 2010. Cetas projecções falam mesmo de um aumento de cerca de 10ºC

Segundo os últimos estudos realizados pelo centro de meteorologia francesa, o termómetro poderá elevar-se de 4 a 7 graus em média no Verão em França durante o período 2070-2100, tornando a canícula sentida no ano de 2003 como «um Verão frio».

Segundo o site Photeus o transporte é de longe o responsável nº1 do aquecimento climático, representando 29% da emissões de gás em 2002.

Na realidade, 160 milhões de toneladas de CO2 é a contribuição anual dos transportes franceses para o efeito de aquecimento global, num total de 554 milhões de toneladas (consultar: http://www.ifen.fr/)

O aquecimento climático projectado para o século XXI arrisca-se a provocar um aumento contínuo das águas, o que terá um forte impacte nas regiões costeiras mundiais., isto é, nas regiões mais povoadas do planeta, gerando fortíssimas tensões obre a ocupação do espaço. Prevê-se igualmente o desaparecimento de espécies vegetais e animais. As quantidades de água potável arriscam-se a diminuir provocando aumento a probabilidade de conflitos sobre a sua apropriação e controle. A «guerra quente» será também uma guerra pela água.

Os países desenvolvidos desenvolverão estratégias de protecção, como o desenvolvimento massivo da climatização ( em particular, nos automóveis), o que contribuirá ainda mais para a aceleração mundial do fenómeno do aquecimento climático.

O protocolo de Kioto não vai mudar nada. O seu impacte será pequeno num plano estritamente científico. Com a adesão dos Estados Unidos a diminuição da temperatura seria atenuada em 0,06 ºC (AFP). Ora nem sequer os Estados Unidos nem ainda os países do Sul com forte crescimento económico assinaram o protocolo.

Uma das consequências do aquecimento climático é o desaparecimento progressivo dos glaciares, já iniciado. Face a este problema apareceram soluções ridículas como a sua embalagem para se protegerem dos raios solares (http://permanent.nouvelobs.com/sciences/20050322.OBS1894.html). Mas esta solução, com um custo de 60.000 euros para cobrir apenas 3.000m2 de gelo, só ilustra a loucura dos homens e a falta de senso das nossas sociedade civilizadas. No fundo, trata-se de mais uma solução fornecida pelo mercado capitalista a um problema ambiental global o que mostra mais uma vez, tal como o desenvolvimento da climatização , que a mão invisível do mercado mais não é um imperialismo ecológico baseado na pilhagem e na destruição do planeta.

A pilhagem dos recursos naturais ou «a economia do suicídio.

Segundo os Amigos da Terra, o aquecimento climático gerado pelas emissões excessivas de dióxido de carbono para a atmosfera tem tido efeitos desastrosos como a mudança dos ciclos das estações, as inundações, os furacões, a subida das águas dos oceanos, que são já perceptíveis. A poluição do nosso ambiente, a extracção dos recursos naturais são factos devidos a um modelo de desenvolvimento que só aproveita para uma minoria em prejuízo da grande maioria dos seres humanos.

Ora o crescimento acelerado de certos países do Sul provoca a pilhagem ainda mais intensa dos recursos naturais. Segundo Françoise Lemoine, economista no CEPII (Centre d'Etudes prospectives et d'informations internationales), o crescimento explosivo da China começa a traduzir-se por problemas de «aprovisionamento de matérias primas, nomeadamente em energia. A China não é rica em matérias-primas e o seu crescimento não tem nada de económico. Por consequência, o desenvolvimento económico do país faz-se em prejuízo do ambiente. Com efeito, a China é p segundo produtor mundial de gás com efeito de estufa depois dos Estados Unidos. E se continuar a este ritmo, as pressões sobre as matérias primas ainda mais se vão intensificar» http://www.lexpansion.fr/art/15.0.129678.0.html

Já hoje a corrida às principais matérias primas industriais ( alumínio, aço, cobre, etc) conhece tensões importantes no mercado mundial, por efeito do aumento da procura induzido pelo crescimento económico chinês, e as deslocalizações industriais das multinacionais ocidentais só pioram o panorama.

Apesar das discussões entre os especialistas acerca da exacta data do Pico de Hubbert, o consumo do petróleo conhece uma aceleração sem precedentes o os preços do petróleo batem sucessivos records. A OPEP (Organização dos países Exportadores de Petróleo) parece não controlar a situação, não dispondo de margem de manobra uma vez que já está a produzir no máximo das suas capacidades ( consultar para mais informações http://www.liberation.fr/page.php?Article=283202).

Para satisfazer esta «fome de petróleo sem fim, os Estados Unidos já decidiram avançar para a exploração petrolífera numa sua reserva natural, como é o Alaska, para produzir um total de 1 milhão de barris/dia, ou seja, 1/8= do consumo mundial diário de petróleo em 2003 (cerca de 80 milhões de barris/dia) (consultar: http://radio-canada.ca/International/014-petrole-alaska.shtml)

A fim de satisfazer o crescimento explosivo da motorização na Chuna, o consumo chinês de petróleo aumentou em 2004 ao ritmo espectacular de 14% (consultar: http://www.lariposte.com/22/enjeu_petrole.htm)

Este imperialismo ecológico, como todo o imperialismo, está baseado no princípio da destruição total. A pseuda-regulação da oferta e da procura parece não ser capaz de atenuar esta corrida às matérias primas. A escassez progressiva da oferta face a uma procura cada vez maior levara logicamente a uma intensificação da corrida às matérias primas. Os ganhos de produtividade e os progressos tecnológicos permitirão pilhar cada vez mais a um baixo custo dentro de limites aceitáveis para as economias já sobreaquecidas e dispostas a pagar caro o custo global da energia.

A guerra quente ou as novas guerras de conquistas.

No plano militar, este imperialismo ecológico não se substitui ao imperialismo mais clássico, que foi responsável pela mais pura tradição neo-colonial. Mas torna-se o motor de novas guerras de conquistas, baseadas na procura do controle das reservas petrolíferas. As duas últimas guerras do Golfo são bem a ilustração perfeita desta nova orientação petro-estratégica. A ideologia da guerra fria é substituída pela economia da guerra quente.

Neste contexto, com 10% das reservas mundiais, o Iraque tornou-se o alvo das ambições americanas. Todavia, o Iraque não pode, com as possibilidades tecnológicas e financeiras ao seu dispor, desenvolver a sua produção a um nível satisfatório para os interesses norte-americanos. Por isso é que a privatização do petróleo iraquiano e a sua exploração por empresas americanas foi um dos objectivos de guerra dos Estados Unidos. No fundo, trata-se de enfraquecer e dobrar a OPEP, eterna inimiga, e do seu sistema de quotas.

Contudo, os acontecimentos no Iraque mostram-nos que os objectivos americanos não são fáceis de serem alcançados, e muito menos por via da Venezuela. Tendo em conta a evolução da guerra no Iraque, e mesmo supondo que os Estados Unidos conseguissem manterem-se por lá durante algum tempo, é muito duvidoso que conseguissem gerir a produção petrolífera do país a ponto de mudar significativamente a oferta mundial. O Iraque não será solução para os problemas energética norte-americanos.» ( http://www.lariposte.com/22/enjeu_petrole.htm)

Quais serão os próximos alvos da administração norte-americana no objectivo de alimentar os depósitos das viaturas do automobilismo mundial? O Irão está na lista dos «estados-canalhas» o que não é surpresa alguma se pensarmos que é quinta maior reserva de petróleo bruto no mundo (http://www.strategicsinternational.com/f5sabahi.htm)

Mas a surpresa pode bem vir da Arábia Saudita que já começa a ser acusada de financiar o terrorismo internacional, tendo em conta o facto de dispor de importantes reservas de hidrocarbonetos do mundo. Tanto mais que, sob a ameaça de uma destruição das suas instalações petrolíferas pela Al Quaida, o país pode ser o próximo a receber um «intervenção preventiva» dos USA destinada a garantir a estabilidade do fornecimento mundial de petróleo. ( consultar para mais informações : http://www.digitalcongo.net/fullstory.php?id=50661)

A Administração norte-americana é cada vez vez mais, não o polícia do mundo, mais o pirómano do planeta…

Enquanto a guerra fria estava baseada no nuclear, a guerra quente baseia-se fundamentalmente no automóvel e no seu uso massivo à escala planetária. O automóvel individual caracteriza o modo de vida ocidental, em expansão rápida pelo resto do planeta, e que está baseado na pilhagem acelerada dos recursos naturais, muito especialmente dos hidrocarbonetos. Ora o que já é dificilmente sustentável à escala do Ocidente, torna-se simplesmente impossível à escala planetária. As primeiras petro-guerras e a exploração do petróleo no seio de santuários ecológicos, a poluição crescente e o aquecimento climático previsto, as tensões actuais na corrida às matérias primas e a pilhagem acelerada das reservas mundiais são sinais visíveis de uma destruição programada do planeta pela «civilização do automóvel»

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