Nós chegamos a um momento na História em que é preciso uma ação decisiva para evitar um desastre ambiental completo. Com os reatores nucleares proliferando e mais de 900 espécies na lista das que estão em extinção, não pode mais haver demora, ou nossas crianças terão seu futuro negado.

A Fundação Greenpeace espera estimular ações não violentas, inteligentes e práticas, para avançar contra a corrente de destruição planetária. Nós somos o "povo do arco-íris", representando todas as raças, todas as espécies, toda criatura viva. Nós somos patriotas, não de uma única nação, ou estado em aliança militar, mas do mundo inteiro.

É preciso que se entenda que a inocente palavra "Ecologia" contém uma idéia que é tão revolucionária quanto qualquer outra, desde a ruptura de Copérnico, quando houve-a descoberta de que a Terra não era o centro de todo o universo. Através da Ecologia, a ciência envolveu-se na busca da ordem que sustenta o fluxo complexo da vida em nosso planeta. Esta busca tem-nos levado para muito além, no campo do pensamento científico tradicional. Como a religião, a Ecologia procura responder aos infinitos mistérios da vida em si. Utilizando os instrumentos da lógica, da dedução, da análise e do empirismo, a Ecologia pode provar que é a primeira e verdadeira religião-ciência.

Tão inesperadamente quanto Copérnico, ao nos ensinar que a Terra não era o centro do universo, a Ecologia nos ensina que a humanidade não é o centro da vida em seu planeta. Cada espécie tem sua função no esquema da vida. Cada uma tem um papel a desempenhar, por mais obscuro que possa ser.

A Ecologia nos ensinou que a Terra toda é parte do nosso "como" e que precisamos aprender a respeitá-la, tanto quanto respeitamos a nós mesmos. Assim como nos amamos, precisamos amar também todas as formas de vida no sistema planetário — as baleias, as focas, as florestas e os mares. A beleza fantástica do pensamento ecológico está em ele nos mostrar um caminho de volta para uma compreensão do mundo natural —,uma compreensão que é imperativa, se quisermos evitar o colapso do ecossistema global.

A Ecologia nos forneceu muitas revelações. Elas podem ser agrupadas em três "Leis da Ecologia" básicas, que contêm verdades para todas as formas de vida — os peixes, as plantas, os insetos, o plâncton, as baleias e o homem. Estas leis podem ser apresentadas da seguinte forma:

A primeira Lei da Ecologia afirma que todas as formas de vida são interdependentes. A presa é tão dependente do predador, para o controle da população da espécie, quanto o predador é para a presa, enquanto suprimento de alimentos.

Exemplo: Os humanos, em seu próprio interesse, sempre desenvolvem planos para o extermínio de espécies que são consideradas "indesejáveis". Poucas objeções seriam levantadas a um plano de erradicação do mosquito. Seria mais difícil, contudo, conseguir a aceitação de um programa para erradicar as andorinhas, tão bonitas em seus movimentos rápidos, procurando insetos no céu. Mas, espere. As andorinhas estão comendo mosquitos. Antes que os mosquitos sejam eliminados, seria sensato considerar o número de pássaros que morreriam de fome por isso.

A Segunda Lei da Ecologia afirma que a estabilidade (unidade, segurança, harmonia e convivência) do ecossistema é dependente de sua diversidade (complexidade). Um ecossistema que contém cem espécies é mais estável do que um ecossistema que tem apenas três espécies. Portanto, a complexa floresta tropical úmida é mais estável do que a tundra do Ártico.

Exemplo: Considere um ecossistema natural, tal qual uma floresta que possua uma dúzia de espécies diferentes de árvores. Cada espécie é suscetível a doenças especificas que podem matar as árvores individualmente. Se há muitas árvores da mesma espécie, é improvável que todas sejam atacadas ao mesmo tempo e, uma vez que as árvores estejam espaçadas, com outras espécies entre elas, haveria menos chances de uma epidemia exterminar todas as árvores dessa espécie. Entra o homem — a floresta é cortada, por causa da madeira e da celulose, e é replantada com mudas de uma certa espécie, uma espécie que serve melhor às necessidades do homem do que qualquer uma das doze espécies originais. Agora, se uma doença que é específica da nova espécie atacar a floresta, todas as árvores são suscetíveis, e uma epidemia pode acontecer com muito mais facilidade.

A Terceira Lei da Ecologia afirma que todos os recursos (comida, água, minérios e energia) são finitos e há limites para o crescimento de todos os sistemas vivos. Estes limites são ditados, finalmente, pelo tamanho finito da Terra e pela entrada finita de energia solar.

Exemplo: Há tantos exemplos de nossa incapacidade de reconhecer essa lei que nenhum exemplo explicaria a gravidade da situação. Seria o bastante dizer que, agora, nós estamos alcançando os limites de muitos recursos naturais, incluindo a terra para a agricultura, a pesca, as baleias, o petróleo, os minérios, a água e as florestas. Nesse processo, estamos criando uma situação desesperadora para outras espécies, que também dependem de muitas dessas fontes para sua energia e alimentação.

Se nós ignorarmos as implicações lógicas dessas "Leis da Ecologia", continuaremos a ser culpados de crimes contra a Terra. Nós não seremos julgados pelas pessoas por esses crimes, mas por uma justiça maior, a da própria Terra. A destruição da Terra vai levar, inevitavelmente, à destruição de nós mesmos.

Portanto, vamos trabalhar juntos, para pormos um fim à destruição da Terra pelas forças da ignorância e da cobiça humanas. Através do entendimento dos princípios da Ecologia, nós precisamos encontrar um novo direcionamento para a evolução dos valores e das instituições humanas. Uma economia de curto prazo precisa ser substituída com ações baseadas na necessidade de conservação e preservação do ecossistema global inteiro. Nós precisamos aprender a viver em harmonia, não apenas com nossos semelhantes, humanos, mas com todas as belas criaturas neste planeta.

(Fundação Greenpeace — Jornal da Tarde)

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